"Nasci em Portugal, em uma fazenda. Naquela época, contavaminha mãe, Portugal era dividido em Comarcas, como aqui hoje existem os municípios. Essa cidade onde nasci se chamava Comarca COnselho da Guarda. Lembro-me pouco, mas minha mãe, Generosa Saraiva, dizia que meu pai, Salvador Máximo, veio para o Brasil uns dois meses antes pois as condições em Portugal já não eram favoráveis com 5 filhos: eu, com 5 anos, dois irmãos de 7 e 9 anos e duas irmãs de 3 e 1 ano.
Faltava trabalho. O que se ouvia em Portugal era que 'o Brasil é bom pra se viver'. Tinha várias oportunidades, pois era um país rico, em crescimento, e com pouca gente trabalhando.
Então, 2 meses depois d vinda de meu pai, ele nos mandou dinheiro para comprar passagens. Eu era pequena, mas lembro que as malas se resumiam em algumas roupas nossas e algumas panelas.
Dormimos naquela noite em Lisboa, de onde partiria nosso navio no dia seguinte. Me lembro que, mesmo com 5 aninhos, fiquei encantada com a cidade linda e todos aqueles navios. Para embarcar chorei muito pois um marinheiro me pegou no colo e subiiu por uma escada de corda por trás do navio. Tinha muita gente: homens, mulheres e crianças. Lá ficamos por 15 dias e 15 noites.
Em umas dessas noites acordamos com muito sapitos da buzina do navio inglês chamado Urânia. Lembro de ver até os homens chorando, um pouco de água no chão e todos falavam de nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora da Conceição. Minha mãe, com minha irmãzinha no colo, rezava muito com o terço na mão. Quando eu já era maiorzinha, minha mãe me contou que tinha furado o casco do navio e, com muita 'LIDA' (trabalho), conseguiram consertar. Eles fecharam as portas para que a áua não fosse para a parte de cima e o casco foi concertado.
Chegamos no porto de Santos em 1926, em meados do mês de Agosto. Meu pai nos esperava e nos trouxe para morar em um sobrado, na Vila Camponesa, onde hoje é o Km 18 da Via Anchieta, bem ali na rotatória. Minha mãe saía cedo para vender ovos e frango, onde hoje é Piraporinha, minha irmã menos ficava com uma vizinha meio longe, meus dois irmãos iam para a escola, meu pai trabalhava fazendo estradas por São Bernardo e eu, com 5 anos, ficava em casa cuidando da minha irmã de 3.
Tudo melhorou muito quando, no ano seguinte, meu pai arrumou um trabalho com os gados na fazenda do Doutor Baeta Neves e fomos morar lá. Dr Baeta Neves fazia consultas de graça para as pessoas e para os trbalhadores. Todo dia dava leite e alguns alimentos para meu pai, fora o pagamento do mês.
Aqui cresci, casei, tive meus filhos, netos, bisnetos e tataranetos. Quando me perguntam, sempre digo que sou brasileira, pois, como meu pai dizia: 'aqui é bom pra se viver'."
Margarida Máximo Garcia, minha bisavó. Nasceu em portugal no dia 9 de novembro de 1921 e falesceu aqui mesmo, no Brasil, no dia 23 de dezembro de 2008. Tinha milhões de histórias para contar e assumiu esse país com o coração.
Eternas saudades de sua bisneta. Sam.
E, assim como ela, ainda existem, hoje, muitos senhores que participaram da construção do nosso país e que realmente querem e gostam de contar suas histórias. Escute-as pois são interessantes e, quando eles se forem, as histórias também irão. É nosso dever passá-las para frente pois o Brasil não nasceu do nada!
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